Uma Las Vegas que vai além dos cassinos

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Com réplicas kitsch da Estátua da Liberdade, do Empire State e do edifício Crysler, a Strip, no Las Vegas Boulevard, é o trecho mais movimentado da região

 

Ás 6h30, com o sol tênue e os termômetros ainda na marca dos 30º, é agradável caminhar na Strip, o trecho mais movimentado do Las Vegas Boulevard, em Las Vegas (EUA). A essa hora, grupos que aproveitaram a noite nas baladas e nos cassinos se misturam a turistas madrugadores, de máquina fotográfica em punho. Em pouco tempo, no entanto, o calor quase insuportável do verão chegará a 40º. A opção é transferir a diversão para dentro dos hotéis, onde os neons estão sempre ligados e raramente dá para saber se é dia ou noite.

Construída em pleno deserto, Las Vegas é uma cidade na qual tudo ocorre no interior dos hotéis. Lá estão os melhores shows, restaurantes e as melhores lojas. A própria visita aos hotéis é parte do entretenimento, o que os transforma em locais de alta concentração de gente. Para andar, é preciso se desviar das pessoas, fugir das aglomerações, seguir mapas e, na hora de ir embora, enfrentar enormes filas.

Com alguns dos maiores hotéis do mundo e tarifas relativamente baixas para o padrão americano, Las Vegas é uma cidade-cenário e o paraíso do turismo de massa. O maior hotel, o The Venetian, com a torre The Palazzo, soma mais de 8 mil suítes e 11 mil m2 de área de cassino. A arquitetura reproduz o Palácio Ducal, da praça São Marcos, em Veneza. Há canais, gôndolas, fontes, estátuas e música italiana como trilha sonora. A poucos metros dali fica o Paris Las Vegas Resort and Casino, com seus cafés inspirados em Saint Germain, que circundam uma réplica da Torre Eiffel.

A cidade tem fama de ser um gigantesco parque de diversões para adultos, destino oficial das despedidas de solteiro e única na exuberância de seus casamentos. Mesmo para quem não gosta de cassinos, não há espaço para tédio. É o único lugar do mundo fora do Canadá que possui uma base fixa da companhia Cirque du Soleil. Atualmente há sete espetáculos do grupo circense em cartaz, em sete hotéis diferentes. Há exposições de Pablo Picasso (1881-1973), musicais da Broadway e uma programação ampla de shows, de cantoras e cantores como Britney Spears, Rod Stewart, Céline Dion, Olivia Newton-John e Placido Domingo, entre outros.

Ao desembarcar ali, no curto trajeto que separa o aeroporto do centro, a primeira percepção que se tem é de que o cartão-postal com neons de todas as cores, tantas vezes visto em filmes, induz à ilusão de que tudo é perto. Ao vivo, tudo é longe. O City Center Tram liga 3 dos 14 hotéis do grupo MGM Resorts, mas o táxi é uma opção bastante utilizada para sair de seu hotel e ir ao vizinho.

Nos últimos anos, a política local tem sido dar prioridade ao turismo estrangeiro, segundo Chuck Bowling, presidente do Mandalay Bay Resort and Cassino, proprietário de vários hotéis na cidade. Os números, porém, indicam que cerca de 80% dos turistas são americanos. O Brasil é o sexto mercado e cresceu 13% no último ano, de acordo com o Las Vegas Convention and Visitors Authority. Por mais que a cidade funcione como permanente centro de convenções, 71% dos visitantes aproveitam para jogar e a média de gastos em jogos é de US$ 530 per capita.

Apenas 36% dos turistas vão a Downtown Vegas, onde a cidade foi fundada, que fica a dez minutos de táxi e ressurgiu como lugar “cult”. O empresário que está por trás da transformação do antigo centro é Tony Hsieh, CEO da Zappos, empresa americana de “e-commerce” de sapatos e roupas, vendida para a Amazon em 2009 por US$ 1,2 bilhão. No fim de 2011, Hsieh anunciou que doaria US$ 350 milhões de sua fortuna para financiar o Downtown Project, plano urbanístico para revitalizar o centro de Vegas.

A ideia do empresário era seduzir várias “startups” e criar novos atrativos para seus funcionários, já que a empresa se mudaria para lá. Seu plano passava por desenvolver um sentido de comunidade além dos jogos e da festa, por meio do fomento da arte e da música. De lá para cá surgiram centros de lazer como o Container Park, um espaço de restaurantes e lojas, feito com contêineres de todas as cores, onde nos fins de semana há eventos gratuitos. Aos poucos, lojas decadentes e estúdios de tatuagem dão lugar a galerias e bares modernos que utilizam decoração retrô. As construções são baixas, as calçadas, largas, e tudo parece a antítese do excesso da Strip.

“A mudança de Downtown é impressionante”, diz Bradley Manchester, chef-proprietário do restaurante Glutton, aberto há seis meses. Cassinos e hotéis estão sendo renovados e mudando de nome. Diferentemente da linguagem “tudo junto e misturado” da Vegas turística, ali o despojamento e o minimalismo dão as cartas. O Glutton, assim como o Terapy, recém-inaugurado, tem chão de cimento, canos e tubulações expostas, arquitetura com madeira e metal. A frequência é de pessoas na faixa dos 30 anos e os pratos feitos com ingredientes locais citam as fazendas onde foram produzidos.

A experiência gastronômica, aliás, é um dos fortes de Las Vegas. De casas estreladas a “casual dinings” de sotaque oriental, há de tudo. Os restaurantes são espécies de recantos como um mundo à parte, onde a elegância dos garçons substitui os decotes generosos das garçonetes dos cassinos e a calma dá uma trégua ao frenesi das multidões. Alguns dos melhores chefs do mundo estão lá, como Joel Robuchon, Pierre Gagnaire, Guy Savoy e Mario Batali. Alain Ducasse vai abrir o Rivea, em outubro, no Hotel Delano, que, ao lado do Mandarin Oriental e o Four Seasons, faz parte do time dos hotéis sem cassino, que apostam em uma clientela em busca de outra atmosfera na cidade.

O simples fato de não ter que atravessar uma extensa área de máquinas e mesas de jogo para chegar à ala dos quartos já faz toda a diferença. Esses projetos apostam em uma Vegas mais sofisticada, de arquitetura contemporânea e menos kitsch. Um dos exemplos dessa linguagem é o Crystals Shopping, que só tem lojas de grifes e exibe instalações permanentes de artistas como o americano James Turrell.

Além das compras, os turistas também encontram diversão acelerando automóveis em circuitos fechados. A Exotics Racing, líder no mercado de aluguel de carros de luxo, tem o brasileiro Al Santos como diretor de vendas. Ele vive em Vegas há 12 anos e passou 10 trabalhando para grandes hotéis. Seu contato com o público brasileiro se dá proporcionando experiências ao volante. Na frota da empresa há marcas como Ferrari, Lamborghini, Porsche e Aston Martin. O preço por 15 minutos na direção do carro mais barato, o Porsche 991 GT3, é US$ 199. “Os brasileiros estão em terceiro lugar entre a clientela e são os que mais gastam”, diz Santos.

A jornalista viajou a convite da Virtuoso Travel Week

Fonte: Valor Econômico