Não seja vítima do estresse no trânsito

Saiba quais são os sintomas e como lidar com essa situação no dia a dia

Sueli Osório

 

Você é daqueles que fica irritado quando fazem uma barbeiragem na sua frente? Xinga quando te cortam na rua e tem dor de estômago só de ver um congestionamento?

Fique atento, pois você pode ser uma vítima do estresse no trânsito. Segundo o psiquiatra Júlio Fontana Rosa, professor da Faculdade de Medicina da USP e integrante da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), o trânsito já é tenso em si mesmo pelo volume de veículos e consequente dificuldade para transitar de maneira minimamente satisfatória. Acidentes e outros fatores podem interferir ainda mais para acentuar esta dificuldade. Segundo ele, outros fatores concorrem para o incremento do estresse:

• O fato de o carro ainda ser um instrumento de status. Daí, qualquer situação que faça o condutor se sentir “passado para trás” desencadeia uma resposta. O brasileiro tem no carro um elemento de status. Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro tem a síndrome do cachorro vira-lata ou narcisismo ao avesso. Fontana Rosa chama isso de casa grande x senzala. “Alguém me fechou, ou fez algo que me jogasse (na minha percepção) para a condição de senzala, eu tenho que responder. Muita gente pensa assim”, diz o psiquiatra.

• O veículo é uma máquina com pelo menos uma tonelada de metal. Fico muito mais poderoso dentro dela.

• O carro como meio de extravasar estresses por outros motivos (briga no trabalho, na família, etc.). Isso explica porque muitas reações no trânsito são exageradas (o individuo está “aproveitando” o momento para descarregar suas frustrações, mágoas, etc.).

• Transtornos psíquicos: pessoas com problemas como irritabilidade, transtornos de personalidade, etc.

Entre os sintomas do estresse estão o cansaço, intolerância a pequenos eventos que possam ser considerados provocativos (dificuldade cada vez maior de “deixar para lá”).

Para Marcelo Gomes da Rocha, psicólogo clínico e organizacional e especialista em consultoria de gestão, há motoristas que reagem ao estresse do trânsito antes mesmo de “estar nele”. Essa reação surge por meio de crises de ansiedade, desconforto físico, dor de cabeça ou tremores.

Durante a ação de dirigir costumam acontecer alterações de humor, com o surgimento da irritabilidade para com os outros. “Muitas vezes há dificuldade em identificar os comportamentos advindos do estresse e a pessoa percebe apenas quando o organismo já está reagindo de forma inadequada a ele, ou seja, quando o corpo está em sofrimento. Estar atento a si mesmo e ao ambiente, conhecer as reações do próprio organismo aos diferentes tipos de estímulos é um bom caminho para perceber as alterações que acontecem diante de fatores estressores como o trânsito”, aconselha.

Fontana Rosa explica que o estresse pode causar outros problemas mais graves, como depressão, transtorno de ansiedade generalizada, e até mesmo desencadear quadros de pânico.

Segundo Claudia Ballestero Gracindo, analista do comportamento e neuropsicóloga, atualmente várias estratégias estão sendo desenvolvidas para evitar o estresse ou mesmo reduzir os seus efeitos. A pessoa pode identificar no seu dia-a-dia os principais fatores que lhe causam desconforto ou irritação e tentar evitá-los. “Atividade física, tempo adequado de sono, alimentação saudável e interação social são fatores que contribuem na redução do impacto do estresse crônico sobre o organismo. Resultados de estudos recentes sugerem que práticas regulares de ioga, meditação e psicoterapia diminuem os efeitos do estresse no organismo.”

Mas como perceber que já é hora de fazer um tratamento? Segundo os especialistas, um sinal de alerta é quando a sensação de estresse invade situações não relacionadas a ele, como o convívio social, familiar e os momentos de lazer. “Quando o estresse interrompe a vida, causando problemas, crises de ansiedade ou até mesmo sensação de perda de controle é altamente recomendado que se procure ajuda de profissionais de saúde. Estes poderão recomendar um tratamento que possa oferecer apoio e suporte para enfrentar o estresse sem deixar que o mesmo assuma o controle da vida. Há também opções de clinicas especializadas em tratar o assunto”, orienta Claudia.

Fontana Rosa dá algumas dicas para evitar a situação de estresse no trânsito. “Não leve para o trânsito seus problemas particulares. Ou seja, se tiver que discutir no trânsito que seja pelo fato que de verdade te incomodou naquela situação. Não use o trânsito para exteriorizar seus problemas. Só isso já ajudaria muito. Quando o trânsito estiver parado e não houver um compromisso aguardando, ou tiver horário flexível, ouça música, coloque-se a par das notícias pelo rádio”, recomenda.

Como relaxar de maneira segura no trânsito:

relax Não seja vítima do estresse no trânsito

1. Crie um ambiente agradável no carro, torne o tempo ocioso no trânsito útil e desligue-se do caos externo. Aproveite o tempo parado para fazer anotações ou colocar os papéis em dia, mas atento ao que ocorre à sua frente.
2. Não caia no jogo dos “irritadinhos” e ceda sempre. A resposta às provocações pode piorar o contexto. Lembre-se de que todos que estão ali são vítimas do congestionamento.
3. Tente administrar seu tempo. Vá ao trabalho mais cedo ou mais tarde, procure não trafegar na hora do rush.
4. Pesquise caminhos alternativos, utilize um guia ou GPS. Você pode até não evitar o trânsito, mas terá paisagens novas a observar.
5. Se puder, nos feriados e finais de semana viaje com seu veículo, não havendo trânsito nessas ocasiões o estresse diminui e você volta a sentir prazer no ato de dirigir.
6. Ligue seu sistema de som, procure escutar notícias interessantes ou sua música preferida. O volume do som não deve ser exagerado, pois isso também cria estresse e aumenta a irritabilidade.
7. Se estiver com algum passageiro procure se distrair “batendo um papo” agradável.
8. Alterne o uso do ar-condicionado com a brisa de fora. Usar apenas o ar-condicionado cria uma atmosfera artificial que irrita em pouco tempo.
9. Procure pensar em coisas boas, tente lembrar-se daquela antiga piada ou relembre momentos agradáveis da sua vida, não se envergonhe em falar ou dar risada sozinho.
10. Faça planejamentos mentais: compras, viagens, projetos.
11. Tenha áudio books, ou aulas de idioma em CD para se distrair ou estudar, transformando assim uma situação de estresse em algo produtivo.
12. Coloque os pés no chão do carro, descansando as pernas.
13. Faça alguns exercícios: mexa os pés, o pescoço, alongue-se. Uma boa opção é utilizar o Relaxamento Muscular Progressivo (técnica que trabalha a tensão e relaxamento dos músculos).
14. Não faça uso da buzina! Esse ato aumenta o seu estresse e o do outro, pois o trânsito não vai melhorar a partir deste som. Vale lembrar que é proibido buzinar.

Fontes:  Notícias Automotivas / Marcelo Gomes da Rocha e Claudia Ballestero Gracindo