Na hora de alugar um carro, cuidado para não ficar a pé

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Diferença entre tabela da CVC e da empresa americana obrigou a empresária Kamylla Lima pagar a mais por um veículo que comportasse a bagagem (Foto: Hans von Manteuffel)

Janeiro é mês de férias, sinônimo de viagem. Dependendo do destino, há turistas que optam por alugar um carro para não depender de táxis e do transporte público. Mas, se faltar atenção na hora de contratar o serviço, o que deveria ser um conforto pode virar dor de cabeça.

Foi o que aconteceu com a empresária Kamylla Lima, quando viajou para os Estados Unidos. Ainda no Brasil, ela esteve numa loja da CVC, no Recife, para fazer as reservas do carro para a viagem à Flórida. Queria alugar um sedã e já havia escolhido o modelo, mas as três malas que seu grupo levava exigiram uma troca de plano.

— Fomos informados pela CVC de que o sedã não daria para três malas, então perguntamos qual carro as comportaria, e a funcionária informou que era o Toyota RAV4, mais caro do que o modelo anterior — contou.

Porém, ao chegar a Orlando, a informação dada pela empresa de locação foi diferente:

— Eles nos disseram que teria que ser um carro ainda maior. Uma funcionária de lá mostrou uma tabela indicando que só cabem duas malas naquele modelo, sendo que a tabela aqui no Brasil mostrava que eram três.

Diante da negativa da empresa em liberar o utilitário, porque o limite de bagagem seria ultrapassado, o grupo teve que pagar a diferença de R$ 710 para levar um veículo ainda maior.

— No hotel, entramos em contato com a CVC e explicamos o que aconteceu. A funcionária disse que estava tudo bem e que era para levarmos os documentos quando voltássemos ao Brasil. Mas, quando retornamos, não fomos reembolsados, porque a CVC informou que assinamos o contrato porque quisemos — reclama Kamylla.

A CVC esclareceu que entrou em contato com a locadora de automóveis e providenciará o estorno das despesas extras.

FOI DE TÁXI

Quem também teve um problema no exterior — com carro alugado já no Brasil — foi Alexandre Albuquerque, que registrou a reclamação em uma carta à Defesa do Consumidor:

“Contratei um aluguel de carro com a Decolar.com. No dia de pegar o veículo nos EUA, a empresa não aceitou o voucher da Decolar com o valor pago no Brasil, e tive que pagar tudo novamente para poder levar o carro. Chegando ao Brasil, entrei em contato com a Decolar para solicitar o reembolso, mas a mesma informou que nada vai fazer.”

A Decolar.com lamentou o fato e informou que o valor foi disponibilizado na fatura do cartão de crédito de Albuquerque. A empresa também salientou que, em caso de problemas em Miami, Orlando e Cancún, o consumidor pode ligar para 1-888-9293119. Nas demais cidades e países, o contato é por meio do número 0800-721-6527.

Já o editor de livros Bruno Fiuza acabou tendo que recorrer a um táxi, após problemas na hora de retirar o carro no guichê da Hertz no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, no meio de um feriado. Após uma longa espera na fila, ele não conseguiu levar o veículo, reservado por meio de um site, porque o atendente alegou “ilegibilidade de um número de segurança”, que, segundo Fiuza, nunca havia sido cobrado por outras locadoras e cuja exigência não era informada nos e-mails da empresa.

— A espera de duas horas já teria sido inaceitável mesmo que a locação tivesse sido concluída. A empresa sabe quantos carros sairão a cada hora e quanto tempo leva o processo de cadastro do motorista. Portanto, não há justificativa para impor uma espera tão longa — critica.

Hertz informou que o número de segurança é, na verdade, o da carteira de habilitação, o que fez com que o cadastro fosse rejeitado. A empresa também lamentou os transtornos e afirmou “que medidas necessárias já foram tomadas para que situações como essas não sejam reincidentes”, além de ter oferecido R$ 150 em descontos de locação para Fiuza.

CARRO ENGUIÇADO

Mas nem sempre o problema ocorre durante as férias. No caso do coreógrafo Laudnei Delgado, o carro alugado com a Localiza enguiçou e o fez perder um dia de trabalho:

— O carro parou assim que saí para o trabalho, por volta de 6 da manhã. Pedi que a locadora me socorresse, mas eles não só demoraram com o socorro como também me deixaram na rua, alegando que um carro extra reserva ou táxi só poderia ser ativado se eu fosse o locatário principal, e não o motorista adicional, como era o meu caso.

Delgado também alega não ter recebido as devidas informações sobre essa exigência.

— Explicaram várias coisas, menos que, em caso de problemas no carro, eu, como condutor extra, não teria direito a socorro. E eu perdi o dia de serviço pelo horário do ocorrido e por morar em área onde é difícil conseguir um táxi.

De acordo com a Localiza, o motorista adicional pode dirigir o carro, mas não está autorizado a fazer alterações no contrato, entre as quais estão: “substituir o carro, contratar serviços adicionais, optar pela forma de pagamento do contrato, ou tomar qualquer decisão que seja de responsabilidade do locatário, conforme contrato”. E a mudança de carro é considerada alteração no contrato porque depende da assinatura do locatário.

O presidente da Associação de Proteção e Assistência aos Direitos da Cidadania (Apadic), Antonio Mallet, afirma que a a Localiza errou.

— Havendo qualquer problema com o veículo, sendo ele dirigido pelo locatário ou pelo adicional, a locadora deve repor o carro — explicou, completando que, como houve um dano (a perda do dia de trabalho), o consumidor tem direito a buscar reparação.

Mallet ressalta que o cliente deve ler o contrato antes de simplesmente assinar:

— Ao fazer qualquer contrato, o consumidor tem direito de receber uma cópia no momento da assinatura, assim como as condições da apólice. E ele tem a obrigação de ler, porque assim pode pedir alteração ou não assinar.

Outra orientação dos especialistas é que o consumidor guarde todas as provas do que foi acertado, como o contrato ou notas fiscais.

— Vale o escrito, não o combinado — afirma a secretária municipal de Defesa do Consumidor do Rio, Solange Amaral.

PARA NÃO DERRAPAR

Sem surpresas. Antes de efetuar a reserva, é preciso ter conhecimento dos termos e condições do contrato para evitar surpresas desagradáveis. As informações devem estar não só no site da empresa, mas também disponíveis na loja para que o consumidor possa consultar. O cliente também deve receber uma cópia do contrato

Reserva respeitada. Quando o consumidor reserva um carro específico, a locadora deve respeitar o pedido. Na falta de um carro como o requisitado, deve ser fornecido um modelo superior, nunca um inferior ao contratado

Seguro é opcional. Fazer seguro para o veículo alugado é recomendável, e a locadora pode sugerir a contratação. Porém, o consumidor não pode ser obrigado a contratar o serviço, porque caracterizaria venda casada, explica Solange Amaral, secretária municipal de Defesa do Consumidor do Rio

Vale o escrito. É importante guardar o contrato (original ou cópia) e os documentos que comprovem o que foi contratado, sejam comprovantes ou notas fiscais. No caso de transações pela internet, vale fazer uma impressão da tela. Desta forma, é possível comprovar o que foi contratado, sobretudo quando as divergências não forem resolvidas por acordo

Atrasos. Em caso de atraso na entrega do carro por parte da empresa, o contrato deve ser estendido para compensar o tempo perdido. Por outro lado, se o consumidor tiver um grande atraso na hora de retirar o veículo, ele pode perder a reserva, caso não tenha efetuado o pagamento antecipadamente

 

Fonte: O Globo